sexta-feira, 18 de maio de 2012

Devaneio Federal. Homenagem ao Dr. Ervin e ao Prof. Dantas.

Muito mal escrito, mas o Prof. Dantas e o Dr. Ervin, darão conta do recado. Eles sabem o que eu quero dizer, righ righ, my little droogies????

Naquela tarde fatídica, eu proseava e matava o meu tempo numa roda  de amigos no gramado da Escola de Música da UFMG, acompanhado pelo talentoso Professor Dantas. Além da agradável companhia do Professor, haviam outros camaradas conosco: Sérgio, um exímio geógrafo; Dudu, um filósofo revolucionário; João, o político estudantil; Pedrão, um músico 'paz e amor'; um outro Pedrão, carinhosamente chamado de 'nosso mestre' e ,enfim, o soturno Doutor Ervin.  O Dr. Ervin era apático, de olhar vazio e frio, de uma sobriedade quase psicopata. Ele era um homem sério, de poucas palavras. Mas parecia que dentro dele haviam engrenagens que giravam à todo vapor, e que retiravam, assim, a energia daquele olhar.
Enquanto o Músico Pedrão enrolava um baseado, o Sol ardia obliquamente sobre o violão cantante, que delongava nas mãos de Dantas. Estava tudo agradável, ensolarado e verde. Após o baseado ser consumido, propus ao Professor "une promenade", um passeio pela escola de música, enquanto o cânhamo massageava nosso cérebro.
Chegando lá, o ar era  leve e a mistura de melodias era sempre consonante para os nossos ouvidos abertos à percepção. Caminhamos, observamos a precisão dos alunos pelas pequenas janelinhas das salas de aula, enquanto dialogávamos sobre aquele lugar tão mágico e tão exuberante em sua arte. Começamos a percorrer extensos corredores pelo interior do prédio, nas entranhas daquele local. E, sem que percebêssemos, nossa prosa cessou, nós apenas observávamos e sentíamos aquele ambiente.
Então chegamos num corredor distinto. A única opção era virar à esquerda, e a escuridão daquele novo corredor já mostrava seu limiar, na parede à nossa frente, antes de alcançarmos a curva. Desaceleramos os passos e lentamente viramos à esquerda, numa hesitação inconsciente. O ar estava ganhando densidade, o tempo passava mais lentamente e uma letargia envolvia nosso espírito.
Após virar, paramos.O corredor tinha as luzes apagadas, as portas das salas deixavam passar raios fracos de luz branca e, no final do corredor, uma lâmpada dava seus últimos suspiros... Oscilando em pulsos elétricos.
Nos entreolhamos intrigados... O que será que estava acontecendo? Quando começamos galgar em frente, nosso ouvido passou a ser alfinetado por uma música endiabrada, que substituiu a harmonia anterior. Os sons agudos estavam estridentes e dissonantes. Os instrumentos de sopro faziam uma marcha amedrontadora, uma mistura de agudos arranhados e ofegantes, pontuados por graves profundos e pomposos.  Este conjunto de sensações eram incríveis, porém aterrorizantes. Pareciam um prelúdio de algo pior.
Íamos caminhando pelo corredor como dois curiosos e, quando fomos conferir pelas janelinhas das salas os músicos que agregavam aquela desarmonia, não havia ninguém. Os ambientes careciam penosamente de vidas humanas, nada nos aconchegava mais. Haviam apenas velhas vitrolas em seus uníssonos individuais, uma em cada sala. Essa bizarrice toda, um corredor escuro, salas trancadas com suas luzes brancas, vitrolas avulsas e o som aflitivo, criavam um manicômio à nossa volta.
Essa constatação nos fez entrar em um desespero contido. A realidade estava ali, mas vacilava para as margens do absurdo. Era ridículo termos aquele medo, mas o sentíamos à cada instante.Era frio, escuro, estridente. Com o coração batendo rapidamente, apressamo-nos em sair daquela sensação. Finalmente chegamos à luz vacilante e pudemos, assim, tomar outro rumo.
Durante o percurso de volta, trocamos poucas palavras... Apenas jogamos observações racionais sobre a estranheza vivenciada pela dupla. Absortos em reflexões sobre aquilo tudo, nem percebemos que os saguões estavam vazios. As pessoas haviam ido embora, e apenas aquele som estranho era audível, distante.Naquela vazieza, éramos as únicas almas vivas que existiam. O que seria desconcertante, caso tivessemos constatado tal fato,  pois há poucos instantes atrás, pessoas iam e vinham por ali.
Quando chegamos na saída envidraçada do prédio, apalpamos com certezas aquele absurdo que vivíamos. Estava de noite, e deviam ser 15h ainda. Quando Dantas buscou as horas no seu relógio de pulso, mostrou-me que os ponteiros estavam congelados às 14h47min. Nos entreolhamos assustados e ele exclamou: " Que merda é essa que está acontecendo com a gente?"
Não consegui responder nada, apenas grunhi algum palavrão e prossegui em direção à saída.
Estava muito frio do lado de fora, o ar saía esfumaçado pela nossas narinas. Não era possível aquilo estar acontecendo. Há pouco o sol nos esquentava no gramado verde, e esta memória ainda estava fresca para nós.
Então, andamos apressadamente pelo gramado escurecido, em direção ao local onde estávamos reunidos mais cedo. À partir daí, o medo só fez-se crescer: O violão estava jogado no chão, sem cordas, cercado por roupas largadas no chão... As roupas dos nossos queridos camaradas estavam jogadas na grama, sem seus respectivos donos. Ficou evidente que alguma coisa maligna estava em curso, estava claro que não era apenas a imaginação de algum de nós dois: Percebíamos individualmente o cenário que ia surgindo à nossa volta. Um cenário agonizante que ia contra toda a lógica de nossas vidas. O que diabos estava acontecendo conosco?
Enquanto olhávamos as roupas no chão, sujas e rasgadas, um odor repugnante invadiu nossas narinas... Um cheiro de enxofre, alguma coisa acontecia perto dali. Ao buscarmos com os olhos a origem de tal cheiro, vimos um rastro de fumaça saindo de uma mata, que fazia fronteira com o gramado em que pisávamos.  A tensão aumentou, e começamos a suar frio, embasbacados. Mas o cheiro de enxofre se foi, e, sob aquele som longíncuo e bizarro, rumamos, instintivamente, para a mata fechada.Um ponto de luz laranja guiou-nos pela nossa caminhada desencorajada.
Chegamos finalmente ao cúmulo desta narrativa medonha. Lá estava o Dr. Ervin, sentado de costas para nós, sobre o toco de uma árvore cortada. O homem raquítico estava totalmente nu.Sua pele branca alaranjava-se diante do fogo de uma pequena fogueira, para a qual ele estava de frente. Ele abraçava a si próprio , atravessando os braços pela frente do corpo e fazendo com que suas mãos alcançassem suas costas. A única coisa que movia naquele corpo paralisado eram as mãos, que esfregavam as costas ensombreadas, como que para proteger-se do frio que reinava. Estacamos. Não tínhamos a menor ideia do que estava para suceder. Conhecíamos pouco o Dr. Ervin, aliás, ninguém o conhecia direito. Ele apenas convivia conosco na UFMG, de forma misteriosa e silenciosa.
 "Ervin?" - exclamou Dantas... Ele não respondeu... Chamamos seu nome incessantemente e nenhum músculo se moveu. Ele parecia estar em transe, num transe psicótico. Aquilo tudo era demoníaco. Mas forçamo-nos a acreditar que estava tudo bem e que logo o pesadelo acabaria. "Vamos acabar logo com essa loucura"- eu disse - " ele deve estar passando mal"... Péssimas palavras. Eu dizia isto, mas tremia de medo por dentro. Nada mais era normal.
. Haviam alguns pêlos negros em suas costas e o seu cabelo era bem curto, sua posição era meio retraída, ele acorcundava-se um pouco. Aproximei-me do Dr. Ervin e lentamente cheguei meus dedos perto daquela pele branca. Hesitei um pouco antes de iniciar o contato físico, eu estava perigosamente perto dele.
Quando o toquei, sua pele estava gelada. De súbito, ele inspirou ruidosamente um bocado de ar e expirou levemente. Em seguida, começou rir baixinho, um riso quase mudo, mas penetrante.
Vagarosamente, ele ergueu a cabeça que pendia para baixo e, sentado, foi girando para a nossa direção, sem alterar aquela postura friorenta. Quando parou, sua risada maléfica foi ganhando tom gradualmente, o que me fez recuar um ou dois passos, para o lado do Prof. Dantas, que estarrecia-se.
Quando parou de girar, numa explosão demoníaca, o pavoroso Dr. Ervin escancarou sua boca de dentes amarelados e começou a gargalhar descontrolavelmente, como um lunático enfurecido. Suas mãos esfregavam compulsivamente as costas e o corpo nu pendia para frente e para trás, acompanhando o ritmo estridente da risada enlouquecida.
Aquele riso invadia nossas cabeças e nos deixava atordoados, em meio a todo o terror. Não tínhamos ideia do que fazer. Ele ergueu-se então violentamente, e abriu os braços, tais quais grandes asas, crispando os dedos com força e urrando: " ERRRRVIN!!!"
Só então, a luz iluminou o rosto do Dr. Ervin, e nos deu a nossa última visão daquela noite.As orelhas eram finas, quase sem pele, com uma cartilagem navalhada, quase vampiresca. Sua barba avolumava as linhas inferiores do seu maxilar, e as sobrancelhas arqueavam formando duas pontas. A boca estava aberta, mostrando os dentes sanguinolentos e vorazes. Mas os olhos eram a visão mais medonha possível. Arregalados e vermelhos, ameaçavam cada pensamento nosso.
Como um felino, suas pupilas esticaram-se verticalmente, uma visão diabólica. Aquele lunático incorporava uma monstruosidade animalesca. A realidade em que vivíamos e tudo que acreditávamos ser lógico, estava sendo esmagado pelo Dr. Ervin.
Mesmo se sobrevivêssemos àquela visão monstra, ao choque psicológico e a todos os perigos que emanavam daquela criatura, o mundo não faria mais sentido. Seria uma constante fuga, um medo cotidiano que nos gelaria a cada sombra, a cada ruído e a cada cortina esvoaçante. O Dr. Ervin estaria sempre à espreita. Um monstro sorrateiro e alucinado ao mesmo tempo, Sutil e arrebatador, Sóbrio e ébrio, louco e sério, Razão e instinto. Homem e animal.

STALINGRADO

Porque o sangue derramado,
não fez nascer rosas vermelhas,
nas ruas de Stalingrado?
Nas mães já s`esfriaram,
as fumegantes centelhas?




domingo, 13 de maio de 2012

Bela boca
Fugi do explícito
Pra me esfolar n'implícito.

No deleite de tal realidade
Eu só choraria tais verdades.
O dia das mães é hoje... E eu não fiz porra nenhuma. Este texto foi remoído, mascado, mastigado e todos os tipos de "apagar e reescrever" mentais existentes. O motivo disso é bem simples, eu tive tempo. Uma semana pensando nesta situação ajuda bastante em uma querida criatividade, mas o "querer ter vergonha" é o grande motivador,  e é a fixação do dia, o meu devaneio de hoje.
Eu sabia, e de grande consciência, que eu não ia dar nenhum presente, miserável que fosse, para minha mãe. É dia das mães.Beleza, o dia dela, minha progenitora, aquela que me pariu e que é tanto xingada por minha causa, mas que nem mesmo escuta tais injúrias fedorentas.
Eis então que eu matutei a semana inteira: Qual seria o caminho para não fazer feio neste novo dia das mães? Sabendo que as três últimas datas dessas eu passei na cama  numa puta ressaca, passando mal e num estado inconversável. Desde o início da semana, a ideia de comprar um presente, material, palpável, já estava anulada pela desculpa financeira. Tipo: minha mesada não consegue acompanhar estas despesas, no ano que vem eu compro algo, ela não faz realmente questão disto ou, a mais hipócrita, eu vou conseguir fazer algo melhor para ela...
Dispensando outras desculpas gaguejadas, são 6h da manhã e eu continuo sorrindo para a lua, sem mover nenhum dedo necrosado de cigarro fincado em minha mão tola. Claro que eu faço questão de fazer bonito. Meu sonho seria realizar o sonho da minha mãe. Mas não dá. Pensando e pensando, você acaba chegando à conclusão de que, por mais que a bolsa nova que você compre para a sua mãe seja de um vermelho vinho-tinto, a bolsa do ano que vem será de um vermelho chocante, e a do outro ano, beirará o infra-vermelho. Sim, esta é uma outra desculpa tosca, e tudo que eu argumentar hoje não vai passar de uma desculpa tosca. Em outras palavras,uma desculpa esfarrapadinha.
Poisé, continuando a viagem, eu queria muito ter a gana, o amor de dedilhar mil amores para minha mãe aqui, ou, pelo menos, arrepender-me de não tê-lo feito, Mas acontece que tanto faz. Não há nem um nem outro. Eu continuo aqui tal qual uma rocha desmaiada no fundo do mar. Refletindo pensamentos tão submarinos quanto o naufragado Titanic. Submarinos mesmo, abaixo do meu próprio senso comum, que seria a nossa superfície respirável. E eu não vou comprar um embrulho bonito para você, justo porquê hoje é o dia 13 de maio de 2012. Vou apenas escrever isto porque tenho muita vontade, porque é algo que anda muito latente desde que eu comecei a pensar em presentes maternos. Bem, seu maior presente é ser você, e eu quero que o meu maior presente seja ser eu, filho seu. Não é nada megalomaníaco nem ideal. É apenas sonho de filho.
Feliz dia das mães, linda. Eu vi tantos jovens, como eu, comprando belos presentes para suas mães, que eu me senti envergonhado. Mas acho que eu me envergonho mais falando que eu estou envergonhado, do que "pagando este mico com você". Mas este devaneio atrasado foi o melhor que eu pude assoprar na tua cara agora. E me desculpe o bafo de cerveja.
Eu te amo, Rafael.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Éramos

Éramos
Jovens, belos, amigos
Andávamos juntos na rua
Vadiando, chutando as latas
Gargalhando, tirando sarro
e fumando cigarro nas matas.

E o riso era desatado
Sem amarras nem malícias
Sem machucar as verdades
Temerosas em miúdas idades.

Mas quando chegou o douro da dama
Chacoalhando seu guizo
Um decote explosivo
Sem teimas na cama

Avançamos na cascavel
Que babava tal mel

Ela então mente e evapora.

E os amigos se arrebentam de frente

Quebrando e arrancando seus dentes.

Não são mais jovens, nem belos amigos.
Agora são ratos, escarrados, fedidos.


Devaneio de 3 jovens alucinados, 3

Piegas, mas interessante.

O fogo aceso é um sorriso amarelo
A morte é um destino, deixa que a noite nos guie pro fim.
Não passa de ironia.
Nessa juventude louca
que todos querem pensar mais do que o mundo permite
Somos tantos mas tão poucos ao mesmo tempo.
Quero dizer aos meus amigos
O tanto que é lindo pensar apenas em querer pensar o máximo, o tudo.
Sabemos que o tudo está dentro de nós, mas é inalcançável.

Devaneio noturno de 3 jovens alucinados. 2


O mundo é tão amarelo
Parece cerveja
sério, veja.
O tudo somos todos nós
O tudo sou eu, bah.
Mas não tento poesia para impressionar
nem impôr mera estética
Só digo que temos amigos sem ética
Pois eles dizem que o ideal vive aqui
Mas esquecem que nada consegue ser tão legal pra ser esse ideal
de vida, de mundo, de tempo, de ninguém, de mim, de ti.
De tudo que dizemos aqui, pois queremos um sorriso muito branco.
Mas sujamos os dentes, como o amarelo da cerveja.

Instinto noturno de 3 jovens alucinados.

Eu sinto que eu tenho que escrever
Eu sinto que eu tenho que escrever
Eu sinto que eu tenho que escrever
Eu sinto que eu tenho que escrever
Eu sinto que eu tenho que escrever
Eu sinto que eu tenho que escrever
Eu sinto que eu tenho que escrever
Eu sinto que eu tenho que escrever
Eu sinto que eu tenho que escrever
Eu sinto que eu tenho que escrever
Eu sinto que eu tenho que escrever
Que que tem falei
Todas as verdades que minha voz queria
Ei-tudo bem? 
Qual é teu nome?
Não conheço, mas vem, me importa...
Pode não ser importante, mas é mais bonito que um dragão sem dentes que não solta nenhum fogo,

quinta-feira, 3 de maio de 2012

PARADOXO LIBERAL: A ANULAÇÃO PARCIAL DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL HUMANA



Há um paradoxo na ideia liberal de condenar a intervenção estatal na economia.
Radicalizando nos termos (não digo que alguns dos próprios liberais não façam uso deles), a seleção natural econômica proposta no liberalismo se vê defasada a partir do momento em que ela não é total. Há a ausência de um estado na economia, mas a ausência da do estado em outras áreas relacionadas, é desprezada tacitamente. Isso cria uma injustiça, é como se uma determinada lei, coagisse apenas uma parcela da população.
Tomemos como pano de fundo a expressão ‘moinho satânico’, de Karl Polanyi. Sendo ela um exagero, ou não, a miséria, ou pauperismo, é endêmico em nossa sociedade. O caos social, a soberania do capital sobre a vida humana, a falta de amparo estatal, é insustentável. O ser humano, seguindo seu instinto, não permaneceria conformado, padecendo por não ter acesso econômico aos meios de sobrevivência. Da mesma forma que o mais “competente” ( forte, esperto, esforçado, ou qualquer adjetivo que identifique  o sujeito que consegue dinheiro para sobreviver, ou esbanjar) chegou  ao seu status social vencendo na árdua “seleção natural econômica” por puro mérito, a massa oprimida tomaria seus métodos, por mais selvagens que fosse, para sobreviver.
Neste ponto de calamidade pública entra, enfim, o estado, para anular a desordem da luta de classes como uma força transcendental. E ele o faz através da polícia e das leis. É neste momento que o liberalismo, utópico, entra num paradoxo, pois a seleção natural é quebrada. O pobre que poderia brigar pela sua posição social, através dos seus métodos, é forçado a abrir mão do seu instinto de sobrevivência.  Ele é obrigado a abaixar a cabeça diante do sistema.
O estado não deve intervir nos salários, no auxílio aos pobres, nos impostos, nos bancos centrais. Mas deve manter a ordem, por mais que ela subverta a salubridade da vivência humana. Proteger a propriedade é mais importante que deixar o homem proteger a própria vida. Ele não pode roubar uma maçã, mas pode morrer de fome na fila de um hospital. Eis o paradoxo. Claro que o pobre não deve matar o rico ou destruir a fábrica dele para sobreviver. Mas os próprios meios politicamente corretos, como greves, protestos, união e propostas de reformas, vão contra a lei soberana, contra a nossa ‘constituição infalível’.
Bem, não estou discutindo a pertinência do liberalismo, mas apenas dizendo que ele é utópico. E o principal, atenção, é a proteção da competição justa, e não da liberdade total que supostamente levaria a ela. Mas que não leva, nunca. A grande problemática é que há dificuldade em encaixar as liberdades em seus devidos lugares.
Não há como impedir as ‘falhas de mercado’: monopólios, competições injustas, poder de mercado. Ou seja, a liberdade é anulada pela sua base: é utópica a ideia de oportunidades iguais de competição. Em última instância, o estado anula a competição ao existir como força coercitiva. Não estou defendendo uma anarquia, pois o homem assistiria à sua própria selvageria, o que é perigoso, devido às suas imperfeições. Não que ele seja ruim, ele é apenas plural. E essa pluralidade pode ser encaixada em uma organização social racional. Mas essa discussão não é a nossa.
A discussão é a controvérsia da “livre competição” quando o estado impede o ser humano faminto de lutar pela sobrevivência. Por exemplo, ema mãe com seu filho morrendo nos braços não pode invadir a UTI de um hospital do SUS. Há uma fila, e deve-se esperar pelo salvamento da criança. É um apelo sentimental, mas traduz a realidade.
Como eu disse antes, a proposta não é o miserável ter a liberdade de matar seu patrão e comer a comida dele, caso consiga. A proposta é que a organização social, no nosso caso o estado, deveria impedir que um ser humano se visse na condição de lutar, contra outro ser humano, pela sua sobrevivência. A ‘maravilha’ humana não está no mercado perfeito, e sim na capacidade do homem de não lutar entre si. A maravilha seria a capacidade do homem não cometer a autodestruição, através da sua capacidade de organização social.
Economicamente falando, também não digo que a flutuação mercantil livre não é benéfica, o argumento de Hayek é enfaticamente válido. Mas deve ser aplaudido com os olhos bem abertos. As interpretações devem ser cuidadosas. Realmente a flutuação dos preços consegue interligar informações maravilhosamente, o mercado encaixa as ofertas nas demandas como se elas fossem as peças de um quebra-cabeça. Mas a partir do momento em que o ser humano acredita ser possível um funcionamento perfeito desta liberdade comercial, ele cai na barbárie. Neste caso, proponho a anarquia, ela é mais sincera e menos hipócrita.
Este liberalismo utópico ignora as raízes de nossa sociedade. Ele trata cada ser humano como uma ilha isolada, independente e igual. Este problema pode resumir-se à lógica: é impossível criar um sistema isento das externalidades. É como tentar prever o futuro, é uma aposta no vazio, como se as probabilidades pudessem ser anuladas.  Seria como uma concordância geral sobre um comportamento humano e econômico a ser seguido. Todos nós vivemos o mundo de hoje e todos nós sabemos que esta sincronia é impossível. Atemo-nos aos fatos reais, simples assim.
Vivemos um progresso fenomenal desde o início do capitalismo. Temos curas, inventos, facilidades, maravilhas tecnológicas, vastidões intelectuais, o ser humano vem se mostrado magnífico. Agora, o meu questionamento é a desconexão feita entre este desenvolvimento humano e a dignidade humana.  O andamento perfeito do mercado (no caso, um andamento igualitário, uma competição justa) uma vez utópico, deve ser construído pela organização humana.
Repito, este andamento ‘perfeito’ não corresponde ao andamento natural da economia e da sociedade, ele deve ser conduzido por elas. Eis então o jogo de funções que é subvertido em muitas discussões: atualmente, a organização humana assegura uma competição deficiente, uma contradição latente e caótica. Atualmente, o objetivo da organização social humana se esconde sob a suposta função de impermeabilizar a economia e deixá-la tomar seu rumo natural e perfeito.  Mas, na verdade, a organização social humana (que existe comumente como o ‘Estado’) deveria desviar o andamento natural da economia para um curso benéfico à humanidade.
O desafio é um animal imperfeito como o ser humano, conseguir aproximar-se de uma organização cada vez mais próxima, da perfeita para si. Por mais que a perfeição seja impossível de atingir, é possível caminhar indefinidamente em direção a ela.

QUAL O PREÇO DA MÃE

Estava eu numa discussão cotidiana sobre liberalismo e intervenção estatal hoje na faculdade. O assunto discorreu na seguinte direção: Falamos sobre a preservação da propriedade e eu argumentei que a propriedade era protegida e que as pessoas não. Por exemplo: Um pobre pode morrer de fome na rua, mas não pode roubar um pão de um rico.
Bem, o liberal argumentou que o pobre podia estudar, trabalhar e comprar o pão... Ridículo. Por mais que isso fosse estúpido, ignorei. Falei então sobre a controvérsia de valores entre a propriedade privada ser mais protegida que o próprio ser humano que não a possui.
Na minha opinião esse é o cúmulo da doença do nosso mundo consumista. Achei ser um argumento fatal. Para completar, perguntei: 
- Você consegue imaginar um valor monetário para sua pessoa?
Eis que ele me responde:
- Ah, sim, um bem alto.
Estarrecido, retruquei:
- Então, e a sua mãe, tem um valor de capital para você?
Ele disse:
-Tem, ué...
 Fui preso.




domingo, 22 de abril de 2012

Senti na tua demora
Uma saída sorrateira
tentando ser francesa
do meu abraço trepidante.


Quis antes meu tapa,
pra dar-me uma noite de pernas e lábios,
à minha lágrima carente?
pois só amas quem mente?

Em tua alva pele
senti teu sabor duvidoso
de quem só é tragado
ao ser empurrado

Empurrá-la pra quê
se se faz amor junto?

Impaciente eu serei
E que se foda essa lei
de etiqueta amorosa
de falsidade indecorosa

Então vou me expôr
como um filme na tela.
mesmo que eu durma sozinho
e, por fim, fique sem ela




sexta-feira, 20 de abril de 2012

Pode doer


Porque não diz sim pra contra-mão?
A corrente não é tão brava assim, seus remos talvez não quebrem.
Talvez eles te levem longe o suficiente.
Bem, é melhor arriscar-se num talvez do que sentar e esperar o rio secar.
Vai percorrê-lo e depois abrir uma torneira mágica?
Vamos inventá-la então? Ajudaria bastante.
Tarde demais. Somos ridículos agora.
Quem anda por aí, tenso.
 Olhares rasteiros sem vida.
Cala-se sem ouvintes? Fala para ser ouvido?
O trava-línguas que lhe manda pagar tudo.
Consegues recitá-lo?
Ou melhor, fingir que não ouviu nada de interessante?
Ah, sem choro nem vela. A luz não está tão ofuscante, basta colocar um óculos escuros bem caro e abrir os olhos lentamente...
Não vai doer nada.
O gago não gagueja porque ninguém o pressiona, tente colocar um cano engatilhado na cara dele.
Se ele chorar, atire.
Ele preferiria fugir do que te ouvir, pensemos nisto. Ele iria rir de você depois de estar foragido, olha que ultraje.
Agora vamos respirar. Pena que está cheirando mal.
Talvez a sua falta de ar seja devido à respiração tóxica dele.
Vamos abrir uma janela grande de verdade. Não é tão pesada assim.
Alguns camaradas podem ajudar!
Dá-lhe logo uma escova de dentes. O hálito fedido está causando náuseas perigosas em mim. Posso enlouquecer .
Além disso, os dentes estão caindo.
Seria bom, pelo menos, manter uma boa aparência né. Deixar nossa consciência meio limpa.
 E eu duvido que você já tentou olhar no olho dele.
Sabe porque?
Simplesmente porque você não riu da minha cara quando eu duvidei disto. Ele nem mesmo tem olhos para se olhar, tolinho. Como você olharia neles então?
Arde.
É tudo preto, que medo.
Medo de que? Posso imaginar o fim da história.
No pior eu já estou.
Acho que é medo de levantar, me mexer... Vai que eu quebro uma costela.
Pode doer.






segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ideais

Vejo pessoas que não se cansam de defender ideais falsificados, angústia. Algo sistemático, raiva. Ideais que elas acharam perdidos por aí, ou ideais que foram gritados em seus tímpanos, ou ideais sobre os quais elas foram obrigadas a escrever, ignorância.

Um ideal vem do coração. Não há como defender um ideal pensado, sem senti-lo ardendo nas entranhas. Há uma gana, uma explosão ácida de motivações, que não é simplesmente colocada no peito. Ela nasce lá. Cada um tem a sua bomba relógio. As vezes só é necessária uma chama para acender-se o pavio.

Um pregador maquiavélico não faz nascer suas pregações nos corações alheios, seus supostos ideais. Ele encena um argumento que, o ser humano que não possuir ainda o próprio, ou, por fraqueza, for movido pelo seu egoísmo, acaba adotando por infortúnio. Há ainda casos em que falta coragem para que ideais sejam assumidos.

O idealista de verdade concorda, mas não se submete. Defender um ideal que não se sentiu na alma, no ato do seu florescimento, é tão perigoso quanto deixar as decisões individuais nas mãos de outrem. Ninguém vai viver a vida de outra pessoa pensando com a própria pessoa pensaria, elas são diferentes. Não necessariamente de boa ou má índole.

Uma simples interpretação, ou má interpretação, de palavras retóricas, pode enterrar um ideal junto com seu idealizador. Pode ser criada uma cópia totalmente falsa. É um disco com a mesma capa, mas com outras músicas.

domingo, 8 de abril de 2012

Qual é a tua, mente, de achar que se conhece. Qual é a tua, cabeça, de tentar se fazer sozinha.
Qual é a tua de ignorar o que vem de fora, para encantar-se com si mesma. Bloquear suas fluências ao forçá-las em vão.
 Qual é a tua.
Qual é a tua de achar-se controlável. De preocupar-se consigo mesma, sendo que assim se esconde das belezas do mundo. De levar-se ao nada tentando fugir de si própria.
 Qual é a tua de bater no ego, qual é a tua de se proteger.
 Qual é a tua de tentar entender.
Qual é a tua de não ignorar as próprias demências, diferenças, insuficiências. De não amá-las e expô-las, francamente.
Qual é a tua de não querer sair da linha perfeita, de não escolher a si própria e sim a todas as outras juntas.
Qual é a tua de não ter coragem de correr ao infinito sem tentar agarrá-lo.
Qual é a tua de não conseguir caminhar de olhos vendados. De não rebentar-se em qualquer muro e explodir-se num turbilhão de cores inventadas por você própria, ali, na hora.
Qual é a tua de não parar de pensar "qual é a tua"?

domingo, 15 de janeiro de 2012

Um outro pequeno conto


Até que eu gosto deste Beto

Mal havia chegado à cidade e a Carminha ficou sabendo do tal do Beto, como qualquer novata em Ouro Preto. O Beto era famoso, todas sabiam dele e todas o desejavam. A Carminha era esperta, ou pelo menos achava que era. Depois de ouvir tantas sirigaitas falando do sujeito, a recém-chegada cravou no seu inconsciente que ia laçar ele, que ia arrebatá-lo de jeito. Seria uma vitória se ela conseguisse ser a primeira mulher a fazer alguma diferença na vida daquele homem tão vislumbrado. Ela decidiu conquistar o intrépido Don Juanito.
Por fora o Beto era o típico boa praça, sorriso de lado, um chapéu panamá branco e conhecedor de todos os garçons velhacos do centro. Só que por dentro esse Beto era um babaca, do tipo de sujeito que seduz uma garota apaixonada, lambuza o cabelo dela e filma tudo, semanalmente. Poucos conheciam este lado do Beto, só os seus verdadeiros amigos. Mas esses verdadeiros amigos nunca foram vistos por ninguém. Provavelmente porque todo mundo achava que era o melhor amigo do Beto, mesmo não sabendo nem o seu sobrenome. Era porque o bom moço sempre papeava com alguém em cada esquina, e de tanto perambular por aí, acabou colecionando inúmeras conversas com os andarilhos locais.
 As pessoas adoravam contar-lhe seus problemas, pedir conselhos e falar sobre a vida. Mesmo detestando os tagarelas, ele não demonstrava, afinal, ele era o boa praça. Assim, o Beto estava sempre interessado em tudo e em todos: nas más vendas dos comerciantes, nas desconfianças das namoradas, nas puladas de cerca dos maridos, nos aborrecimentos de um esportista aposentado, nas prisões do policial gordo e nas espertezas do golpista de dentes de ouro.O seu ponto forte eram os problemas amorosos, e ele adorava este tipo de caso. Dava conselhos decorados para os homens abobados, e, enquanto isso, já começava a caçar suas ditas mulheres. E se era a fêmea quem o procurava, ele próprio já era o consolo imediato. De um jeito ou de outro, o filho da puta continuava agradando a gregos e a troianos, e seu acervo cinematográfico continuava crescendo, se é que você me entende.
Naquela noite, a Carminha estava num bar com a Dora, sentada em uma mesa ao lado da mesa do Beto. A mesa era apenas dele, mas ele nunca era deixado sozinho. Tinha sempre alguém sentado ao seu lado conversando, cumprimentando ou despedindo-se. Os garçons também trocavam alguns palitos com ele, riam um pouco da vida e iam atender aos chamados impacientes das outras mesas.
O crápula tomava apenas cerveja, não muito, se ele ficasse chapado, perderia o controle. Ele tinha que dominar suas ações para colher os frutos que desejava. Ainda tinha o costume de pedir algumas doses de aguardente, que ele sempre jogava no chão, sem ninguém ver, claro.O Beto também tocava gaita, além de mulheres, e dizia que o instrumento possuía um poder mágico: o de despir as mulheres. Sempre funcionava, mas o tal poder não fez efeito na Carminha. A garota sabia jogar aquele jogo muito bem.
 Um músico se apresentava com seu violão num palquinho maltrapilho, típico dos botecos. O artista era figurinha repetida lá, tal qual o Beto, o que os tornou velhos conhecidos. Na hora em que o músico começaria a tocar blues e folk, o mequetrefe do Beto foi chamado para fazer uma palha. O boa praça sempre levava a gaita no bolso, como um tira que carrega o seu três-oitão no coldre todos os dias. Na primeira música ele se recusou a subir, de praxe, numa humildade falseada.  Sempre planejadíssimo. No fundo, aquele escroto queria subir lá, empurrar o bosta do violeiro e tornar-se o rei da cena. Mas não era assim que o seu espetáculo funcionava.
Terminada o primeiro blues, alguns conhecidos insistiram pro Beto subir. Ele foi, fingindo estar encabulado. Fez um solo improvisado de gaita, que foi brilhante para todos ali. Ele segurava o instrumento com uma garra singular e mostrava um grande espírito ao tocá-lo. Não precisava nem dizer, mas não foi improviso porra nenhuma. Qualquer analfabeto musical perceberia que ele repetia sempre a mesma seqüência de notas , sempre os mesmos bends e vibratos, todas aquelas noites em que subia ao palco. Por isso que ele tocava em apenas uma música. Enfim, ele conseguiu arrancar alguns aplausos, e era apenas isto que era de seu feitio.
Quanto foi se sentar, o Beto reparou que a Carminha não olhava para ele. Embora ela fizesse isso de propósito, ele não percebeu. O malandro nunca tinha visto aquela garota pelas redondezas, linda como só ela, da cor do pecado, com uns traços leves e sérios, mas com aquele fogo no olhar que desgringola qualquer cabra. Tiro e queda. Bastou o Beto dar a primeira vislumbrada na Carmen, que aquela sensualidade encarnada já se tornava o alvo da noite.
Um garçon foi o pombo correio que levou um guardanapo, em que o Beto rabiscara algumas palavras convidativas, para a moça da mesa 7. Em poucos instantes, a moça segurava aquele papel na mão. O malandro apenas bicava a reação dela com o canto dos olhos. Ele não sabia que a menininha sabia fisgar um Marlim. Aquele peixe grande e esperto, que os pescadores vão buscar no alto mar. Eles cortam as águas a uma velocidade elevadíssima, para poder acompanhar as nadadeiras do peixe. E se o pescador não colocar um cinto e travar bem os pés na mureta da popa, o Marlim leva ele para o fundo do mar.
A Carminha sorriu, arqueou as sobrancelhas e jogou o papel no chão. Aí que o cara engasgou, aquela cortada logo de início era inédita, deixou ele sem base. A Carminha acertou seu pulo, o Don Juan não desistiria depois desta, ele começou a cair na rede da pescadora. O Beto respirou fundo e tentou parecer relaxado na cadeira, era preciso reverter a situação logo. Ele pediu uma cerveja enquanto pensava na próxima estratégia. Ela não era boba, não encantava fácil, ele tinha que ser mais direto, mais sério. Essa do papelzinho, que já dera certo tantas vezes, o fez sentir-se ridículo.
Quando a amiga da Carminha levantou-se para ir ao banheiro, a oportunidade surgiu, radiante. O Beto levantou-se e foi tranquilamente à outra mesa, pedindo permissão para se sentar. A Carminha riu e fez que sim. Ele puxou um papo e riu da sua tentativa fracassada. Ela deu corda para a conversa dele, sempre mantendo uma certa frieza, para não acabar passando o carro na frente dos bois. Ela disse que viera fazer faculdade na cidade e ele disse que escrevia crônicas para um jornal de São Paulo. Mentiu, como sempre, ele não trabalhava nem estudava, apenas vadiava. E foi nessa mentira que ele entregou-se, a Carminha conhecia bem aquele jornal, e logo colocou a mentira do Beto em cima da mesa.
Ele pensou na hora: “fudeu”. Ela era de Belo Horizonte, mas havia morado em São Paulo por 2 anos. Ele não retrucou nem reafirmou, apenas ficou contemplando aqueles olhos negros que cresciam cada vez mais. Parecia que a música havia cessado, e que a resposta dele seria audível em todo o estabelecimento. Quando a Carminha abriu a boca para falar, o Beto instintivamente também tentou falar algo. Ela cerrou os lábios e ele gaguejou qualquer coisa sem nexo. Pela primeira vez ele ficara sem palavras, o seu pensamento astuto parara naquele vácuo.
Só havia um caminho, não existiam mais desvios nem desculpas, ele seria verdadeiro pela primeira vez. Contou então que não fazia nada, que apenas sonhava em escrever para um jornal, mas nunca tivera motivação para tal. Sobrevivia com uma mesada gorda que o seu pai, que morava na capital, lhe dava. Olhou nos olhos dela, sem graça, e confessou que queria apenas transmitir uma boa imagem. Ela sorriu, satisfeita. Não achara ruim, sentiu-se até bem, o alvo fora devidamente abatido.
A Dora, amiga da Carminha, que já sabia das pretensões da amiga, havia ido embora ao vê-los conversando. E isso permitiu que eles ficassem ali se conhecendo por muito tempo. O Beto continuou com a guarda abaixada, e a Carminha foi abrindo um pouco mais de espaço, sem descer do salto. Ela sabia que tinha conquistado o malandro do jeito que queria e não ia dar mole a essa altura do campeonato.
Os dois foram embora juntos. A pensão em que o Beto morava ficava no caminho da casa em que a Carminha morava com a Dora. Enquanto andavam cercados pelas montanhas de Ouro Preto, a lua, que parecia uma bola de sorvete de creme, iluminava as pedras coloniais da rua. A noite estava estrelada e fria, e o Beto andava com o braço sobre os ombros da moça, tentando diminuir o contato deles com o ar gelado. Continuaram proseando levemente, olhando o céu, como um casal de adolescentes tímidos.
Chegando à porta da pensão, ele ofereceu um agasalho para ela seguir o caminho protegida do frio. Ela aceitou e ambos caminharam em direção ao quarto do Beto, adentrando no hall da casa, iluminado tenuamente por uma lâmpada amarela, bem aconchegante. Eles percorreram o corredor de tábuas corridas e entraram no quarto, que acabara de ser iluminado. Enquanto ele remexia o armário, ela observava o aposento distraidamente. Ele virou-se para ela sem fechar o armário e entregou-lhe uma bela jaqueta de brim beje. Ela agradeceu e disse que a deixaria ali no dia seguinte, com a dona da pensão, caso ele não estivesse. O Beto disse para ela não se preocupar, qualquer tarde ele poderia buscar a jaqueta. Então, a moça concluiu a conversa dizendo que já estava tarde, com um ar meio tristonho. Ele assentiu, sorrindo, e a acompanhou até a porta.
 A garota suspirou, enquanto ele a observava docemente com um olhar de despedida.  Quando aproximaram-se, para dar um beijo de despedida no rosto, o Beto parou, sentindo a respiração da moça. O coração dela acelerou, ele encarava seus olhos silenciosamente. Então, quase que sem querer, ela virou seu rosto na direção do dele e olhou os lábios do rapaz, que arrastaram-se lentamente junto aos seus. Não houve reação contra nem a favor, ela beijou ele serenamente, como quem sai de um castigo.
O Beto sorriu, apaixonado, enquanto acariciava os cabelos castanhos da bela mulher. Há pouco tempo, ele estava duvidando que ela houvesse se interessado por ele, e agora, aquela boca consentira-lhe um beijo. Ela, percebendo a insegurança novata no Beto, fechou a porta do quarto e deu-lhe outro beijo. Tropeçaram lentamente em direção à cama dele, sentindo o calor dos corpos se abraçando.
Enquanto seus corpos caíam lentamente sobre o colchão macio, uma luz vermelha piscava fracamente, escondida dentro do armário soturno. E a luz continuou ali, observando o emaranhado de corpos humanos que se amavam, se é que você me entende.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O ódio humano, metaforizado em uma batalha aérea fantástica, palmas !




Este é o trailer da animação:

O Curta-Metragem inteiro, você vê neste link, vale o tempo gasto!

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=amPNbQRMRCo

Um conto

Talvez um dia, se torne a introdução de algum livro...

O bêbado perturbado

Abruptamente seu estado letárgico foi interrompido pelo solavanco do taxi parando. A luz acesa pelo motorista incendiou sua retina e fez com que ele piscasse rapidamente as pálpebras e fosse tragado de volta a realidade. Ouviu o motorista pronunciar o preço a ser pago pela corrida, com uma voz apagada, desmanchada no ar:

-Dezessete reais senhor.

Roberto sentiu sua cabeça pesar e tateou seus bolsos por fora, buscando a saliência de sua carteira. Arqueou o corpo com dificuldade para alcançá-la no bolso traseiro. Enquanto retirava a nota de 20 reais da carteira, fitou os olhos vazios e enrugados do homem velho. Sentiu naquele instante um vento gélido na alma. Eram como dois buracos negros, duas janelas para um poço escuro, de desilusão e desgosto. A dureza daquele olhar o fez fechar os olhos com força e abri-los em outra direção, fitando a nota encardida que adormecia em sua mão.

Entregou o dinheiro para o homem e quis dizer para ele ficar com o troco, mas sua não conseguiu abrir a sua boca. Apenas fez um gesto desimportante para o homem ficar com tudo e saiu do carro para a imensidão da noite. Tentou medir sua força para não bater a porta e um sentimento estranho o repelia para longe daquele taxi. Tinha vergonha de encarar aquele homem, justamente por ter sentido dó.

Tropeçou na calçada e lembrou-se da sua embriaguês:

- Merda – sussurrou baixinho. Flashes da festa daquela noite passaram rapidamente pela sua cabeça; os velhos amigos; as luzes fortes que brilhavam sem parar; as mulheres, lindas mulheres e o fundo de vários copos. Serviram bastante uísque naquela noite, a cascavel, como ele e seus amigos o chamavam. A cascavel lhe mordera bastante essa noite.

Puxou o molho de chaves do bolso esquerdo e conseguiu acertar o buraco da fechadura após quatro tentativas toscamente frustradas. Fechou calmamente a porta negra de grades metálicas e subiu a escada, em direção ao hall do elevador. Aquela madrugada quente o fez tirar o paletó antes mesmo de alcançar a saleta do térreo, iluminada por uma luz amarela solitária. Gostava daquelas lâmpadas incandescentes, davam conforto a ele, eram muito mais aconchegantes do que as brancas de luzes mortas. Ao entrar no elevador, tirou a gravata e desabotoou a camisa, percebendo várias manchas na sua camisa branca. Ignorou a origem delas.

Seu pensamento era lento e suas ações eram puro instinto. A porta do elevador se abriu e ele destrancou a porta da frente, penetrando dentro da escuridão do seu pequeno apartamento, na zona sul de Belo Horizonte. Após o estrondo da pesada porta se fechando, o silêncio reinou à sua volta. Não acendeu as luzes, gostava de caminhar no escuro até seu quarto, tateando pelo conhecido desconhecido, cambaleou um pouco, mas manteve-se de pé. Escorando pela parede do curto corredor, abriu a porta do seu quarto e finalmente recorreu ao interruptor. Novamente sentiu-se incomodado pela iluminação repentina e uma leve dor de cabeça alfinetou sua têmpora esquerda. Parou por um instante na entrada do quarto e observou lentamente a mesma bagunça que deixara antes de sair de casa.

O aposento contava com uma cama de casal, embora fosse solteiro; uma escrivaninha e uma estante, ambas de madeira escura. Sua condição financeira o permitira decorar seu quarto com alguns caprichos, embora nunca conseguira finalizar.Havia sempre alguma coisa por fazer. A estante estava recheada de livros de todos os tipos, embora não tivesse lido nem a metade, além de vários CD’s antigos e alguns objetos decorativos que gostava de acumular. Sobre sua mesa repousava seu notebook , uma infinidade de folhas, canetas, alguns fios e algumas roupas arremessadas há algum tempo. Tentava o tempo todo criar uma personalidade para o quarto, que remetesse à sua, era o único lugar do mundo em que não se sentia estrangeiro, aquele chão aquecia seus pés e o silêncio lavava sua alma atormentada.

Entrou calmamente em seu quarto e lembrou-se de tudo que passara ali, os sonhos e pesadelos, reais e fictícios, que marcarão sua vida até quando ela existir. Esses pensamentos misturados em lembranças, reais e inventadas, sempre brotavam em sua cabeça, eles ocupavam sua mente sempre que algo o fizesse lembrar deles, e dificilmente se livrava deles. Uma vida presa às lembranças é um inferno pensava ele, mas não se sentia em um inferno, embora pudesse estar em algum.

A visão do quarto bagunçado lhe remetera aos domingos da sua juventude, nos quais a bagunça acumulada de todo o final de semana entulhava seu quarto, lembrou da mãe falando para arrumá-lo, mas nunca o fazia. A bagunça era sua organização predileta. Lembrou-se das vezes que os amigos dormiam em seu antigo apartamento e quando entrava com as namoradas apaixonadamente no quarto, não se preocupando nem um pouco em arrumá-lo para recebê-las, lembrou também das conversas profundas que tinha durante as madrugadas com seus amigos, pensando no futuro, segredando sonhos e pensamentos existenciais.

Sentiu seu coração bater com força e respirou fundo, uma leve ansiedade tomou conta de seu peito. Queria livrar-se daquela roupa logo, que amarrava seu corpo e pesava sobre ele, como uma armadura antiga e enferrujada. Sentou-se na cama e tirou os sapatos pretos, imundos, que estavam com a sola grudenta e várias manchas no couro. Tirou também as longas meias e colocou seus pés no chão frio, arrepiando. Arremessou tudo em qualquer direção e com qualquer força, sem ver onde caíram, pois sabia que ia ver tudo no dia seguinte. Levantou-se rapidamente e teve uma leve tonteira, como de costume, dessa vez acentuada pelo álcool, e automaticamente abaixou a cabeça automaticamente.

Novamente cenas da noite recém-vivida lhe vieram à tona. Várias vozes indistinguíveis misturavam-se com a música, garçons engravatados vagavam com as mãos sempre ocupadas com coisas a oferecer, como vultos invisíveis, olhara nos olhos de todos, mas não se lembrava do olhar de nenhum deles. Com certeza todos lembravam do seu olhar, ele deve ter sido um dos únicos que fitaram os olhos dos garçons na noite. Uma voz feminina ecoava na sua cabeça sem parar, essa voz ria, falava coisas boas e por vezes se calava, num bonito silêncio. Aquela mulher marcara a presença na noite. Ele não conseguia se lembrar de quem era ela, se já a conhecia antes ou se tinha tentado beijá-la, lembrava apenas daquela voz.

Sorriu para o corredor e foi andando em direção ao banheiro, deslizando os pés para não topar em nenhuma quina pontiaguda. Abriu a porta e acendeu a luz antes de entrar por inteiro. Não gostava de ficar lá dentro com a luz apagada, não era uma sensação boa naquele banheiro frio sem janelas. De novo seus olhos doeram e automaticamente suas mãos subiram para protegê-los da clareza repentina. Esse jogo de luzes acendendo e apagando de noite só reforçava o prelúdio da enxaqueca. A tampa do vaso estava sempre levantada, e ele tentou se equilibrar para urinar, mas acabou tendo que apoiar com as duas mãos na parede da frente, que parecia empurrá-lo para trás. Pegou a escova e o creme dental, mas desistiu de escovar os dentes, no estado em que se encontrava era impossível fazer qualquer coisa direito.

Antes de sair do banheiro, rapidamente fitou o espelho e apagou a luz. Quando foi virar-se para sair, a imagem do espelho foi captada pelos seus sentidos e o reflexo, atrasado, o fez acender de novo as luzes. Olhou para o espelho, bem nos seus próprios olhos. Era estranho, não se lembrava da última vez que se vira no espelho, parecia que nunca o havia feito, parecia que não tinha rosto até então. Aproximou-se lentamente do espelho sem tirar a vista dos olhos que fitavam a si próprio e assustou-se. Eles estavam cansados, e havia rugas também, seu cabelo estava ralo, havia alguns pêlos de barba que escaparam da gilete, havia várias rachaduras nos lábios secos e a olheira era similar a de um morto-vivo. Aterrorizou-se com aquele desconhecido, que imitava todos os seus gestos. Parecia um fantasma maligno que o iludia e que, a qualquer momento, quebraria aquela sincronia ridícula o avançaria sobre ele ferozmente.

Desnorteado, levantou seus braços e tocou o espelho gélido, duro, impossível de se ultrapassar. Aquilo estava em seu mundo terreno, era a realidade pesada, sólida, intransponível. Tentou arranhá-lo, mas suas unhas roídas apenas fizeram doer a carne na ponta dos seus dedos. Soprou ar quente para embaçar o vidro, que logo voltou ao normal e mostrou-lhe de novo aquelas feições, irreconhecíveis. Percebia seus velhos traços, mas não encontrava sua juventude. Ele havia envelhecido, rapidamente. Nunca havia raciocinado isso, nunca se dera conta que o tempo passara, que os seus 20 anos se foram. Forçosamente encarou o espelho mais uma vez, e a memória do rosto que vira no taxi, refletido no espelho retrovisor, tornou-se vívida. Aquele era o seu próprio rosto e ele não o reconhecera, tivera dó de si mesmo, sem saber. Andou para trás, tropeçou e saiu do banheiro.

Sufocou um grito, seu corpo parou no tempo subitamente. Ele lembrou de todos seus planos, dos seus sonhos e das promessas individuais de realizá-los, à qualquer custo. Lembrou-se do futuro promissor que ele esculpira quando jovem, pensou em todos os amores que queria ter vivido e dos quais acabara fugindo. Esnobara todos, atrasara o relógio disfarçadamente, era sempre cedo demais. Pensou também em todas as viagens que faria, no mundo misterioso que ele desbravaria e nas montanhas que ele planejava subir, assistir à vista, pegar uma pedra redonda e descer, contente.

Mas ali, diante do espelho, percebeu que sempre tropeçara nos sopés das montanhas, sempre achara elas grandes demais, e assim escolhera uma menor, menor, menor, menor, até que escolhera deitar-se num buraco. Lá era mais escuro, vazio e confortável, fácil de entrar. O difícil era sair. Ele queria apenas subir num pódio e nunca apercebeu-se disso, ele nunca amou as montanhas de verdade, nunca imaginou-se dormindo em uma montanha, nunca imaginou-se fazendo amor em uma montanha. Ele apenas queria subir lá em cima, mas se tratava de subir em pensamento, um subir metafísico. Ele nem mesmo queria estar lá, era frio. Estava claro, ele era a própria montanha, cravada no chão, querendo se escalar. Ele sonhava estar no topo de si mesmo, mas isso era impossível, oras, era uma corrida infinita sem esforço algum. Apenas uma projeção oca.

Aturdido, seu coração palpitava e seus olhos estavam apertados com força. Os pensamentos estavam a mil, começara a tirar conclusões infinitas, parecia que finalmente sua vida elucidara-se. Sua consciência dizia ‘basta’. Olhou uma moldura envidraçada de uma foto de quando era jovem e enfiou a testa nela, estilhaçando o vidro e enfiando pequenos cacos em sua testa suada. O sangue escorreu lentamente. Depois de limpar o rosto, ele socou a parede, carimbando-a com a marca da sua mão, rubra. Sentou-se e começou a chorar nervosamente. Onde estava o problema? O que ele desejara de errado? Porque fora tão cego e tão covarde? Sua cabeça começou a doer, progressivamente. Então, conseguiu respirar fundo e pensar: “para com essa merda seu imbecil, não vê que isto está te fodendo? Acorda, você tá chapado”

Abriu os olhos, e viu a bagunça que havia feito, olhou para baixo envergonhado. O que acontecera naqueles instantes, que bombas que ele acabara de armar em seu cérebro, porque esse imaginário estava agrilhoado em seu inconsciente, de onde aquilo brotara? Era impossível compreender como não percebera o tempo passando, como adormecera durante tantos anos. Acordara só agora. Lembrou-se de um filme que assistira uma vez, ‘O homem que não estava lá’, dos irmãos Cohen.

Realmente ele nunca esteve em lugar nenhum. Mas dessa vez estava ali, sentia o significado do verbo ‘estar’. Ele estava presente, com a carne e com a alma, viu o mundo tal como lhe parecia agora, encarou sua verdade, sua essência, sua busca inútil, sua podre ilusão. Sentia seu corpo, sua respiração humana, seu sangue percorrendo cada centímetro das suas veias. O seu pensamento rodopiava pelo espaço à sua volta, numa presença avassaladora, ele movia-se com toda a energia, com toda a sua persuasiva clareza. Desta vez ele se mostrava de uma forma quase que palpável pelos sentidos.

Então as engrenagens da sua mente começaram a perdera a força. Seu pensamento foi se cansando, ficando rarefeito, até que esbranquiçou por competo. Sim, sua mente era uma folha em branco, não conseguia pensar em mais nada, apenas respirava, sentado. Ficou ali, com a mente vazia durante a madrugada inteira. Seu estado era quase vegetativo, completamente em paz, absorto em um nada. Levantou-se às 8 horas da manhã e foi deitar-se, serenamente.

Dois meses depois noticiaram no jornal, que um brasileiro de Belo-Horizonte vendera seu apartamento e, com o dinheiro, viajara para a Ásia, para a região montanhosa do Himalaia. Não deram muitos detalhes, nem mesmo o nome dele. Não se sabe por que, nem como ele o fez, mas ele se juntara a uma equipe de escalada, no Nepal, que enfrentaria o monte Everest. Ele morrera na descida, despencara de uma altura superior a 500 metros. Não se sabe se ele escorregou ou se ele se jogou. Foi impossível resgatar o corpo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Piegas, mas interessante:


é importante ler e perigoso não ler, pois quando um 'não leitor' lê algo, ele pode concordar com isso, pelo simples motivo de 'não saber ainda' que ele não concorda com isso...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Devaneio sobre os aventureiros: conquistadores e viajantes.

     Hoje eu resolvi falar dos aventureiros. Quando eu penso em um aventureiro, eu consigo imaginar os conquistadores e os viajantes. Os dois querem adquirir riquezas, mas eu considerarei, como estereótipo, que o conquistador precisa buscar, empossar, dominar, enquanto o viajante não busca nada, nem mesmo procura algo, ele apenas admira, e essa é a sua maior riqueza.
     Usar as palavras 'viajante' e 'conquistador' não quer dizer que um conquistador não seja um viajante, ou qualquer outra definição empecilhenta, são apenas estereótipos. Poderia ser conquistador, desbravador, invasor, caçador. Um substantivo precisa ser, antes, adjetivado pelo seu entendedor, para ganhar o seu significado. Estou apenas dando nome aos bois, e os nomes não determinam os bois e nem os bois determinam os nomes, é apenas como vou chamá-los, seus apelidos. Tal como o Joãozinho, não precisaria ser, necessariamente, pequenininho.
      É extremamente difícil separar as duas coisas, pois existem viajantes, que pela simples presença, buscam, empossam ou desbravam parte do mundo à sua volta. A grande diferença está no sentimento que norteia os passos de cada um. O referido conquistador é guiado pelas suas glórias, ele projeta suas conquistas para projetar a si próprio. O viajante é diferente, o sonho dele é projetar para as pessoas o mundo que ele admira e ama, para que este mundo seja cada vez mais amado e admirado. E ele apenas sonha com isso, não é pragmático nem mesmo um manipulador da opinião alheia.O viajante não se incomodaria caso ridicularizassem as suas viagens e não se orgulharia caso as enaltecessem, seguiria apenas admirando.
      Uma aventura, no caso viagens e conquistas, não é necessariamente velejar, voar ou andarilhar pelos quatro cantos do mundo. Para certas pessoas, sair de casa é uma aventura especialmente difícil. Não me refiro às dificuldades físicas, como as enfrentadas por quem tem algum problema sério de saúde. Mas sim às dificuldades do espírito do ser humano. Aquele espírito inerte, mofado, encontrará grandes obstáculos para Viajar. Não que isso o impossibilite de ir trabalhar ou pagar uma viagem caríssima para as ilhas Java, mas isso molda o modo como o homem vai encarar a realidade à sua volta, as suas aventuras.
       Isso não impede que ele saia correndo de sua casa, caso ela esteja ardendo em chamas, mas impede que ele desvie o olhar do computador, para olhar o céu azul através da janela. Ao andar na rua, ele não percebe o desenho das folhas descansadas no chão, ele repara apenas no mendigo empoeirado do qual deve-se desviar apressadamente.Observar a beleza daquelas folhas é poético, ver as diferentes tonalidades que variam de acordo com a sua maturidade. Verdes, amarelas e marrons, embaralhadas de forma que, mesmo aleatoriamente, formam um mosaico que nunca será repetido por ninguém. Essa é a aventura de um viajante, que parabeniza silenciosamente a obra de arte da mãe natureza em meio à cidade cinzenta. Já, desviar de um homem estirado na calçada, é uma conquista. O conquistador sobrepuja assim, mais uma armadilha que a selva de pedra preparara, sorrateiramente, para ele, naquela tarde de outono.

A Loucura flertando a Vida


Inspirado em Erasmo, um elogio à loucura...

Entre risos agudos,
Ela ressoa.
Entre copos vitrais,
A vida se côa.

Cai no ventilador
E nem sente dor.
A vida gargalha.
O choro encalha.

Entre acordes e vinhos,
Ela se inflama.
É a vida que chama.

Ela fica toda toda.
Entre pernas e saltos,
A vida se magoa.

Regada em sonhos altos,
A vida se molha na garoa,
C'as madeixas desalinhadas,
Pelas gotas malvadas.

Ela então baforeja,
Com um quê de cerveja,
Um poema listrado,
Um verso ondulado
Um pouco enrolado.

A vida se encolhe
E olha rasteira, p'ra ela
Que então dança e canta,
De um riso sedutor,
Dizendo ser amor.

A vida então, encabulada,
Diverte-se com ela
Que rouba as rosas que houver
E recita:
Bem me quer mal me quer.

Mas a vida, misteriosa,
Escorrega-se para casa.

Ela chora apaixonada.

Mas a vida foi só se trocar,
Ficar mais arrumada.
Pois eis que logo volta,
Toda empetecada.

E o sol já raiou
Outra festa começou
Um novo flerte alegórico
Mais um amor ilógico

Elas então tornam
A dançar,
A se afastar,
A se abraçar,
A se amar.