Aqui está uma via de escape, uma tentativa de despejo mental, uma aspiração à escrita, um sonho jovem, uma preguiça caseira. beijos e abraços, Rafael
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Devaneio Federal. Homenagem ao Dr. Ervin e ao Prof. Dantas.
Naquela tarde fatídica, eu proseava e matava o meu tempo numa roda de amigos no gramado da Escola de Música da UFMG, acompanhado pelo talentoso Professor Dantas. Além da agradável companhia do Professor, haviam outros camaradas conosco: Sérgio, um exímio geógrafo; Dudu, um filósofo revolucionário; João, o político estudantil; Pedrão, um músico 'paz e amor'; um outro Pedrão, carinhosamente chamado de 'nosso mestre' e ,enfim, o soturno Doutor Ervin. O Dr. Ervin era apático, de olhar vazio e frio, de uma sobriedade quase psicopata. Ele era um homem sério, de poucas palavras. Mas parecia que dentro dele haviam engrenagens que giravam à todo vapor, e que retiravam, assim, a energia daquele olhar.
Enquanto o Músico Pedrão enrolava um baseado, o Sol ardia obliquamente sobre o violão cantante, que delongava nas mãos de Dantas. Estava tudo agradável, ensolarado e verde. Após o baseado ser consumido, propus ao Professor "une promenade", um passeio pela escola de música, enquanto o cânhamo massageava nosso cérebro.
Chegando lá, o ar era leve e a mistura de melodias era sempre consonante para os nossos ouvidos abertos à percepção. Caminhamos, observamos a precisão dos alunos pelas pequenas janelinhas das salas de aula, enquanto dialogávamos sobre aquele lugar tão mágico e tão exuberante em sua arte. Começamos a percorrer extensos corredores pelo interior do prédio, nas entranhas daquele local. E, sem que percebêssemos, nossa prosa cessou, nós apenas observávamos e sentíamos aquele ambiente.
Então chegamos num corredor distinto. A única opção era virar à esquerda, e a escuridão daquele novo corredor já mostrava seu limiar, na parede à nossa frente, antes de alcançarmos a curva. Desaceleramos os passos e lentamente viramos à esquerda, numa hesitação inconsciente. O ar estava ganhando densidade, o tempo passava mais lentamente e uma letargia envolvia nosso espírito.
Após virar, paramos.O corredor tinha as luzes apagadas, as portas das salas deixavam passar raios fracos de luz branca e, no final do corredor, uma lâmpada dava seus últimos suspiros... Oscilando em pulsos elétricos.
Nos entreolhamos intrigados... O que será que estava acontecendo? Quando começamos galgar em frente, nosso ouvido passou a ser alfinetado por uma música endiabrada, que substituiu a harmonia anterior. Os sons agudos estavam estridentes e dissonantes. Os instrumentos de sopro faziam uma marcha amedrontadora, uma mistura de agudos arranhados e ofegantes, pontuados por graves profundos e pomposos. Este conjunto de sensações eram incríveis, porém aterrorizantes. Pareciam um prelúdio de algo pior.
Íamos caminhando pelo corredor como dois curiosos e, quando fomos conferir pelas janelinhas das salas os músicos que agregavam aquela desarmonia, não havia ninguém. Os ambientes careciam penosamente de vidas humanas, nada nos aconchegava mais. Haviam apenas velhas vitrolas em seus uníssonos individuais, uma em cada sala. Essa bizarrice toda, um corredor escuro, salas trancadas com suas luzes brancas, vitrolas avulsas e o som aflitivo, criavam um manicômio à nossa volta.
Essa constatação nos fez entrar em um desespero contido. A realidade estava ali, mas vacilava para as margens do absurdo. Era ridículo termos aquele medo, mas o sentíamos à cada instante.Era frio, escuro, estridente. Com o coração batendo rapidamente, apressamo-nos em sair daquela sensação. Finalmente chegamos à luz vacilante e pudemos, assim, tomar outro rumo.
Durante o percurso de volta, trocamos poucas palavras... Apenas jogamos observações racionais sobre a estranheza vivenciada pela dupla. Absortos em reflexões sobre aquilo tudo, nem percebemos que os saguões estavam vazios. As pessoas haviam ido embora, e apenas aquele som estranho era audível, distante.Naquela vazieza, éramos as únicas almas vivas que existiam. O que seria desconcertante, caso tivessemos constatado tal fato, pois há poucos instantes atrás, pessoas iam e vinham por ali.
Quando chegamos na saída envidraçada do prédio, apalpamos com certezas aquele absurdo que vivíamos. Estava de noite, e deviam ser 15h ainda. Quando Dantas buscou as horas no seu relógio de pulso, mostrou-me que os ponteiros estavam congelados às 14h47min. Nos entreolhamos assustados e ele exclamou: " Que merda é essa que está acontecendo com a gente?"
Não consegui responder nada, apenas grunhi algum palavrão e prossegui em direção à saída.
Estava muito frio do lado de fora, o ar saía esfumaçado pela nossas narinas. Não era possível aquilo estar acontecendo. Há pouco o sol nos esquentava no gramado verde, e esta memória ainda estava fresca para nós.
Então, andamos apressadamente pelo gramado escurecido, em direção ao local onde estávamos reunidos mais cedo. À partir daí, o medo só fez-se crescer: O violão estava jogado no chão, sem cordas, cercado por roupas largadas no chão... As roupas dos nossos queridos camaradas estavam jogadas na grama, sem seus respectivos donos. Ficou evidente que alguma coisa maligna estava em curso, estava claro que não era apenas a imaginação de algum de nós dois: Percebíamos individualmente o cenário que ia surgindo à nossa volta. Um cenário agonizante que ia contra toda a lógica de nossas vidas. O que diabos estava acontecendo conosco?
Enquanto olhávamos as roupas no chão, sujas e rasgadas, um odor repugnante invadiu nossas narinas... Um cheiro de enxofre, alguma coisa acontecia perto dali. Ao buscarmos com os olhos a origem de tal cheiro, vimos um rastro de fumaça saindo de uma mata, que fazia fronteira com o gramado em que pisávamos. A tensão aumentou, e começamos a suar frio, embasbacados. Mas o cheiro de enxofre se foi, e, sob aquele som longíncuo e bizarro, rumamos, instintivamente, para a mata fechada.Um ponto de luz laranja guiou-nos pela nossa caminhada desencorajada.
Chegamos finalmente ao cúmulo desta narrativa medonha. Lá estava o Dr. Ervin, sentado de costas para nós, sobre o toco de uma árvore cortada. O homem raquítico estava totalmente nu.Sua pele branca alaranjava-se diante do fogo de uma pequena fogueira, para a qual ele estava de frente. Ele abraçava a si próprio , atravessando os braços pela frente do corpo e fazendo com que suas mãos alcançassem suas costas. A única coisa que movia naquele corpo paralisado eram as mãos, que esfregavam as costas ensombreadas, como que para proteger-se do frio que reinava. Estacamos. Não tínhamos a menor ideia do que estava para suceder. Conhecíamos pouco o Dr. Ervin, aliás, ninguém o conhecia direito. Ele apenas convivia conosco na UFMG, de forma misteriosa e silenciosa.
"Ervin?" - exclamou Dantas... Ele não respondeu... Chamamos seu nome incessantemente e nenhum músculo se moveu. Ele parecia estar em transe, num transe psicótico. Aquilo tudo era demoníaco. Mas forçamo-nos a acreditar que estava tudo bem e que logo o pesadelo acabaria. "Vamos acabar logo com essa loucura"- eu disse - " ele deve estar passando mal"... Péssimas palavras. Eu dizia isto, mas tremia de medo por dentro. Nada mais era normal.
. Haviam alguns pêlos negros em suas costas e o seu cabelo era bem curto, sua posição era meio retraída, ele acorcundava-se um pouco. Aproximei-me do Dr. Ervin e lentamente cheguei meus dedos perto daquela pele branca. Hesitei um pouco antes de iniciar o contato físico, eu estava perigosamente perto dele.
Quando o toquei, sua pele estava gelada. De súbito, ele inspirou ruidosamente um bocado de ar e expirou levemente. Em seguida, começou rir baixinho, um riso quase mudo, mas penetrante.
Vagarosamente, ele ergueu a cabeça que pendia para baixo e, sentado, foi girando para a nossa direção, sem alterar aquela postura friorenta. Quando parou, sua risada maléfica foi ganhando tom gradualmente, o que me fez recuar um ou dois passos, para o lado do Prof. Dantas, que estarrecia-se.
Quando parou de girar, numa explosão demoníaca, o pavoroso Dr. Ervin escancarou sua boca de dentes amarelados e começou a gargalhar descontrolavelmente, como um lunático enfurecido. Suas mãos esfregavam compulsivamente as costas e o corpo nu pendia para frente e para trás, acompanhando o ritmo estridente da risada enlouquecida.
Aquele riso invadia nossas cabeças e nos deixava atordoados, em meio a todo o terror. Não tínhamos ideia do que fazer. Ele ergueu-se então violentamente, e abriu os braços, tais quais grandes asas, crispando os dedos com força e urrando: " ERRRRVIN!!!"
Só então, a luz iluminou o rosto do Dr. Ervin, e nos deu a nossa última visão daquela noite.As orelhas eram finas, quase sem pele, com uma cartilagem navalhada, quase vampiresca. Sua barba avolumava as linhas inferiores do seu maxilar, e as sobrancelhas arqueavam formando duas pontas. A boca estava aberta, mostrando os dentes sanguinolentos e vorazes. Mas os olhos eram a visão mais medonha possível. Arregalados e vermelhos, ameaçavam cada pensamento nosso.
Como um felino, suas pupilas esticaram-se verticalmente, uma visão diabólica. Aquele lunático incorporava uma monstruosidade animalesca. A realidade em que vivíamos e tudo que acreditávamos ser lógico, estava sendo esmagado pelo Dr. Ervin.
Mesmo se sobrevivêssemos àquela visão monstra, ao choque psicológico e a todos os perigos que emanavam daquela criatura, o mundo não faria mais sentido. Seria uma constante fuga, um medo cotidiano que nos gelaria a cada sombra, a cada ruído e a cada cortina esvoaçante. O Dr. Ervin estaria sempre à espreita. Um monstro sorrateiro e alucinado ao mesmo tempo, Sutil e arrebatador, Sóbrio e ébrio, louco e sério, Razão e instinto. Homem e animal.
STALINGRADO
nas ruas de Stalingrado?
Nas mães já s`esfriaram,
domingo, 13 de maio de 2012
Eu sabia, e de grande consciência, que eu não ia dar nenhum presente, miserável que fosse, para minha mãe. É dia das mães.Beleza, o dia dela, minha progenitora, aquela que me pariu e que é tanto xingada por minha causa, mas que nem mesmo escuta tais injúrias fedorentas.
Eis então que eu matutei a semana inteira: Qual seria o caminho para não fazer feio neste novo dia das mães? Sabendo que as três últimas datas dessas eu passei na cama numa puta ressaca, passando mal e num estado inconversável. Desde o início da semana, a ideia de comprar um presente, material, palpável, já estava anulada pela desculpa financeira. Tipo: minha mesada não consegue acompanhar estas despesas, no ano que vem eu compro algo, ela não faz realmente questão disto ou, a mais hipócrita, eu vou conseguir fazer algo melhor para ela...
Dispensando outras desculpas gaguejadas, são 6h da manhã e eu continuo sorrindo para a lua, sem mover nenhum dedo necrosado de cigarro fincado em minha mão tola. Claro que eu faço questão de fazer bonito. Meu sonho seria realizar o sonho da minha mãe. Mas não dá. Pensando e pensando, você acaba chegando à conclusão de que, por mais que a bolsa nova que você compre para a sua mãe seja de um vermelho vinho-tinto, a bolsa do ano que vem será de um vermelho chocante, e a do outro ano, beirará o infra-vermelho. Sim, esta é uma outra desculpa tosca, e tudo que eu argumentar hoje não vai passar de uma desculpa tosca. Em outras palavras,uma desculpa esfarrapadinha.
Poisé, continuando a viagem, eu queria muito ter a gana, o amor de dedilhar mil amores para minha mãe aqui, ou, pelo menos, arrepender-me de não tê-lo feito, Mas acontece que tanto faz. Não há nem um nem outro. Eu continuo aqui tal qual uma rocha desmaiada no fundo do mar. Refletindo pensamentos tão submarinos quanto o naufragado Titanic. Submarinos mesmo, abaixo do meu próprio senso comum, que seria a nossa superfície respirável. E eu não vou comprar um embrulho bonito para você, justo porquê hoje é o dia 13 de maio de 2012. Vou apenas escrever isto porque tenho muita vontade, porque é algo que anda muito latente desde que eu comecei a pensar em presentes maternos. Bem, seu maior presente é ser você, e eu quero que o meu maior presente seja ser eu, filho seu. Não é nada megalomaníaco nem ideal. É apenas sonho de filho.
Feliz dia das mães, linda. Eu vi tantos jovens, como eu, comprando belos presentes para suas mães, que eu me senti envergonhado. Mas acho que eu me envergonho mais falando que eu estou envergonhado, do que "pagando este mico com você". Mas este devaneio atrasado foi o melhor que eu pude assoprar na tua cara agora. E me desculpe o bafo de cerveja.
Eu te amo, Rafael.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Éramos
Jovens, belos, amigos
Andávamos juntos na rua
Vadiando, chutando as latas
Gargalhando, tirando sarro
e fumando cigarro nas matas.
E o riso era desatado
Sem amarras nem malícias
Sem machucar as verdades
Temerosas em miúdas idades.
Mas quando chegou o douro da dama
Chacoalhando seu guizo
Um decote explosivo
Sem teimas na cama
Avançamos na cascavel
Que babava tal mel
Ela então mente e evapora.
E os amigos se arrebentam de frente
Quebrando e arrancando seus dentes.
Não são mais jovens, nem belos amigos.
Agora são ratos, escarrados, fedidos.
Devaneio de 3 jovens alucinados, 3
O fogo aceso é um sorriso amarelo
A morte é um destino, deixa que a noite nos guie pro fim.
Não passa de ironia.
Nessa juventude louca
que todos querem pensar mais do que o mundo permite
Somos tantos mas tão poucos ao mesmo tempo.
Quero dizer aos meus amigos
O tanto que é lindo pensar apenas em querer pensar o máximo, o tudo.
Sabemos que o tudo está dentro de nós, mas é inalcançável.
Devaneio noturno de 3 jovens alucinados. 2
O mundo é tão amarelo
Instinto noturno de 3 jovens alucinados.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
PARADOXO LIBERAL: A ANULAÇÃO PARCIAL DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL HUMANA
QUAL O PREÇO DA MÃE
domingo, 22 de abril de 2012
Uma saída sorrateira
tentando ser francesa
do meu abraço trepidante.
Quis antes meu tapa,
pra dar-me uma noite de pernas e lábios,
à minha lágrima carente?
pois só amas quem mente?
Em tua alva pele
senti teu sabor duvidoso
de quem só é tragado
ao ser empurrado
Empurrá-la pra quê
se se faz amor junto?
Impaciente eu serei
E que se foda essa lei
de etiqueta amorosa
de falsidade indecorosa
Então vou me expôr
como um filme na tela.
mesmo que eu durma sozinho
e, por fim, fique sem ela
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Pode doer
Porque não diz sim pra contra-mão?
A corrente não é tão brava assim, seus remos talvez não quebrem.
Talvez eles te levem longe o suficiente.
Bem, é melhor arriscar-se num talvez do que sentar e esperar o rio secar.
Vai percorrê-lo e depois abrir uma torneira mágica?
Vamos inventá-la então? Ajudaria bastante.
Tarde demais. Somos ridículos agora.
Quem anda por aí, tenso.
Olhares rasteiros sem vida.
Cala-se sem ouvintes? Fala para ser ouvido?
O trava-línguas que lhe manda pagar tudo.
Consegues recitá-lo?
Ou melhor, fingir que não ouviu nada de interessante?
Ah, sem choro nem vela. A luz não está tão ofuscante, basta colocar um óculos escuros bem caro e abrir os olhos lentamente...
Não vai doer nada.
O gago não gagueja porque ninguém o pressiona, tente colocar um cano engatilhado na cara dele.
Se ele chorar, atire.
Ele preferiria fugir do que te ouvir, pensemos nisto. Ele iria rir de você depois de estar foragido, olha que ultraje.
Agora vamos respirar. Pena que está cheirando mal.
Talvez a sua falta de ar seja devido à respiração tóxica dele.
Vamos abrir uma janela grande de verdade. Não é tão pesada assim.
Alguns camaradas podem ajudar!
Dá-lhe logo uma escova de dentes. O hálito fedido está causando náuseas perigosas em mim. Posso enlouquecer .
Além disso, os dentes estão caindo.
Seria bom, pelo menos, manter uma boa aparência né. Deixar nossa consciência meio limpa.
E eu duvido que você já tentou olhar no olho dele.
Sabe porque?
Simplesmente porque você não riu da minha cara quando eu duvidei disto. Ele nem mesmo tem olhos para se olhar, tolinho. Como você olharia neles então?
Arde.
É tudo preto, que medo.
Medo de que? Posso imaginar o fim da história.
No pior eu já estou.
Acho que é medo de levantar, me mexer... Vai que eu quebro uma costela.
Pode doer.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Ideais
domingo, 8 de abril de 2012
Qual é a tua de ignorar o que vem de fora, para encantar-se com si mesma. Bloquear suas fluências ao forçá-las em vão.
Qual é a tua.
Qual é a tua de achar-se controlável. De preocupar-se consigo mesma, sendo que assim se esconde das belezas do mundo. De levar-se ao nada tentando fugir de si própria.
Qual é a tua de bater no ego, qual é a tua de se proteger.
Qual é a tua de tentar entender.
Qual é a tua de não ignorar as próprias demências, diferenças, insuficiências. De não amá-las e expô-las, francamente.
Qual é a tua de não querer sair da linha perfeita, de não escolher a si própria e sim a todas as outras juntas.
Qual é a tua de não ter coragem de correr ao infinito sem tentar agarrá-lo.
Qual é a tua de não conseguir caminhar de olhos vendados. De não rebentar-se em qualquer muro e explodir-se num turbilhão de cores inventadas por você própria, ali, na hora.
Qual é a tua de não parar de pensar "qual é a tua"?
domingo, 15 de janeiro de 2012
Um outro pequeno conto
O crápula tomava apenas cerveja, não muito, se ele ficasse chapado, perderia o controle. Ele tinha que dominar suas ações para colher os frutos que desejava. Ainda tinha o costume de pedir algumas doses de aguardente, que ele sempre jogava no chão, sem ninguém ver, claro.O Beto também tocava gaita, além de mulheres, e dizia que o instrumento possuía um poder mágico: o de despir as mulheres. Sempre funcionava, mas o tal poder não fez efeito na Carminha. A garota sabia jogar aquele jogo muito bem.
Um músico se apresentava com seu violão num palquinho maltrapilho, típico dos botecos. O artista era figurinha repetida lá, tal qual o Beto, o que os tornou velhos conhecidos. Na hora em que o músico começaria a tocar blues e folk, o mequetrefe do Beto foi chamado para fazer uma palha. O boa praça sempre levava a gaita no bolso, como um tira que carrega o seu três-oitão no coldre todos os dias. Na primeira música ele se recusou a subir, de praxe, numa humildade falseada. Sempre planejadíssimo. No fundo, aquele escroto queria subir lá, empurrar o bosta do violeiro e tornar-se o rei da cena. Mas não era assim que o seu espetáculo funcionava.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
O ódio humano, metaforizado em uma batalha aérea fantástica, palmas !
O Curta-Metragem inteiro, você vê neste link, vale o tempo gasto!
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=amPNbQRMRCo
Um conto
Talvez um dia, se torne a introdução de algum livro...
O bêbado perturbado
Abruptamente seu estado letárgico foi interrompido pelo solavanco do taxi parando. A luz acesa pelo motorista incendiou sua retina e fez com que ele piscasse rapidamente as pálpebras e fosse tragado de volta a realidade. Ouviu o motorista pronunciar o preço a ser pago pela corrida, com uma voz apagada, desmanchada no ar:
-Dezessete reais senhor.
Roberto sentiu sua cabeça pesar e tateou seus bolsos por fora, buscando a saliência de sua carteira. Arqueou o corpo com dificuldade para alcançá-la no bolso traseiro. Enquanto retirava a nota de 20 reais da carteira, fitou os olhos vazios e enrugados do homem velho. Sentiu naquele instante um vento gélido na alma. Eram como dois buracos negros, duas janelas para um poço escuro, de desilusão e desgosto. A dureza daquele olhar o fez fechar os olhos com força e abri-los em outra direção, fitando a nota encardida que adormecia em sua mão.
Entregou o dinheiro para o homem e quis dizer para ele ficar com o troco, mas sua não conseguiu abrir a sua boca. Apenas fez um gesto desimportante para o homem ficar com tudo e saiu do carro para a imensidão da noite. Tentou medir sua força para não bater a porta e um sentimento estranho o repelia para longe daquele taxi. Tinha vergonha de encarar aquele homem, justamente por ter sentido dó.
Tropeçou na calçada e lembrou-se da sua embriaguês:
- Merda – sussurrou baixinho. Flashes da festa daquela noite passaram rapidamente pela sua cabeça; os velhos amigos; as luzes fortes que brilhavam sem parar; as mulheres, lindas mulheres e o fundo de vários copos. Serviram bastante uísque naquela noite, a cascavel, como ele e seus amigos o chamavam. A cascavel lhe mordera bastante essa noite.
Puxou o molho de chaves do bolso esquerdo e conseguiu acertar o buraco da fechadura após quatro tentativas toscamente frustradas. Fechou calmamente a porta negra de grades metálicas e subiu a escada, em direção ao hall do elevador. Aquela madrugada quente o fez tirar o paletó antes mesmo de alcançar a saleta do térreo, iluminada por uma luz amarela solitária. Gostava daquelas lâmpadas incandescentes, davam conforto a ele, eram muito mais aconchegantes do que as brancas de luzes mortas. Ao entrar no elevador, tirou a gravata e desabotoou a camisa, percebendo várias manchas na sua camisa branca. Ignorou a origem delas.
Seu pensamento era lento e suas ações eram puro instinto. A porta do elevador se abriu e ele destrancou a porta da frente, penetrando dentro da escuridão do seu pequeno apartamento, na zona sul de Belo Horizonte. Após o estrondo da pesada porta se fechando, o silêncio reinou à sua volta. Não acendeu as luzes, gostava de caminhar no escuro até seu quarto, tateando pelo conhecido desconhecido, cambaleou um pouco, mas manteve-se de pé. Escorando pela parede do curto corredor, abriu a porta do seu quarto e finalmente recorreu ao interruptor. Novamente sentiu-se incomodado pela iluminação repentina e uma leve dor de cabeça alfinetou sua têmpora esquerda. Parou por um instante na entrada do quarto e observou lentamente a mesma bagunça que deixara antes de sair de casa.
O aposento contava com uma cama de casal, embora fosse solteiro; uma escrivaninha e uma estante, ambas de madeira escura. Sua condição financeira o permitira decorar seu quarto com alguns caprichos, embora nunca conseguira finalizar.Havia sempre alguma coisa por fazer. A estante estava recheada de livros de todos os tipos, embora não tivesse lido nem a metade, além de vários CD’s antigos e alguns objetos decorativos que gostava de acumular. Sobre sua mesa repousava seu notebook , uma infinidade de folhas, canetas, alguns fios e algumas roupas arremessadas há algum tempo. Tentava o tempo todo criar uma personalidade para o quarto, que remetesse à sua, era o único lugar do mundo em que não se sentia estrangeiro, aquele chão aquecia seus pés e o silêncio lavava sua alma atormentada.
Entrou calmamente em seu quarto e lembrou-se de tudo que passara ali, os sonhos e pesadelos, reais e fictícios, que marcarão sua vida até quando ela existir. Esses pensamentos misturados em lembranças, reais e inventadas, sempre brotavam em sua cabeça, eles ocupavam sua mente sempre que algo o fizesse lembrar deles, e dificilmente se livrava deles. Uma vida presa às lembranças é um inferno pensava ele, mas não se sentia em um inferno, embora pudesse estar em algum.
A visão do quarto bagunçado lhe remetera aos domingos da sua juventude, nos quais a bagunça acumulada de todo o final de semana entulhava seu quarto, lembrou da mãe falando para arrumá-lo, mas nunca o fazia. A bagunça era sua organização predileta. Lembrou-se das vezes que os amigos dormiam em seu antigo apartamento e quando entrava com as namoradas apaixonadamente no quarto, não se preocupando nem um pouco em arrumá-lo para recebê-las, lembrou também das conversas profundas que tinha durante as madrugadas com seus amigos, pensando no futuro, segredando sonhos e pensamentos existenciais.
Sentiu seu coração bater com força e respirou fundo, uma leve ansiedade tomou conta de seu peito. Queria livrar-se daquela roupa logo, que amarrava seu corpo e pesava sobre ele, como uma armadura antiga e enferrujada. Sentou-se na cama e tirou os sapatos pretos, imundos, que estavam com a sola grudenta e várias manchas no couro. Tirou também as longas meias e colocou seus pés no chão frio, arrepiando. Arremessou tudo em qualquer direção e com qualquer força, sem ver onde caíram, pois sabia que ia ver tudo no dia seguinte. Levantou-se rapidamente e teve uma leve tonteira, como de costume, dessa vez acentuada pelo álcool, e automaticamente abaixou a cabeça automaticamente.
Novamente cenas da noite recém-vivida lhe vieram à tona. Várias vozes indistinguíveis misturavam-se com a música, garçons engravatados vagavam com as mãos sempre ocupadas com coisas a oferecer, como vultos invisíveis, olhara nos olhos de todos, mas não se lembrava do olhar de nenhum deles. Com certeza todos lembravam do seu olhar, ele deve ter sido um dos únicos que fitaram os olhos dos garçons na noite. Uma voz feminina ecoava na sua cabeça sem parar, essa voz ria, falava coisas boas e por vezes se calava, num bonito silêncio. Aquela mulher marcara a presença na noite. Ele não conseguia se lembrar de quem era ela, se já a conhecia antes ou se tinha tentado beijá-la, lembrava apenas daquela voz.
Sorriu para o corredor e foi andando em direção ao banheiro, deslizando os pés para não topar em nenhuma quina pontiaguda. Abriu a porta e acendeu a luz antes de entrar por inteiro. Não gostava de ficar lá dentro com a luz apagada, não era uma sensação boa naquele banheiro frio sem janelas. De novo seus olhos doeram e automaticamente suas mãos subiram para protegê-los da clareza repentina. Esse jogo de luzes acendendo e apagando de noite só reforçava o prelúdio da enxaqueca. A tampa do vaso estava sempre levantada, e ele tentou se equilibrar para urinar, mas acabou tendo que apoiar com as duas mãos na parede da frente, que parecia empurrá-lo para trás. Pegou a escova e o creme dental, mas desistiu de escovar os dentes, no estado em que se encontrava era impossível fazer qualquer coisa direito.
Antes de sair do banheiro, rapidamente fitou o espelho e apagou a luz. Quando foi virar-se para sair, a imagem do espelho foi captada pelos seus sentidos e o reflexo, atrasado, o fez acender de novo as luzes. Olhou para o espelho, bem nos seus próprios olhos. Era estranho, não se lembrava da última vez que se vira no espelho, parecia que nunca o havia feito, parecia que não tinha rosto até então. Aproximou-se lentamente do espelho sem tirar a vista dos olhos que fitavam a si próprio e assustou-se. Eles estavam cansados, e havia rugas também, seu cabelo estava ralo, havia alguns pêlos de barba que escaparam da gilete, havia várias rachaduras nos lábios secos e a olheira era similar a de um morto-vivo. Aterrorizou-se com aquele desconhecido, que imitava todos os seus gestos. Parecia um fantasma maligno que o iludia e que, a qualquer momento, quebraria aquela sincronia ridícula o avançaria sobre ele ferozmente.
Desnorteado, levantou seus braços e tocou o espelho gélido, duro, impossível de se ultrapassar. Aquilo estava em seu mundo terreno, era a realidade pesada, sólida, intransponível. Tentou arranhá-lo, mas suas unhas roídas apenas fizeram doer a carne na ponta dos seus dedos. Soprou ar quente para embaçar o vidro, que logo voltou ao normal e mostrou-lhe de novo aquelas feições, irreconhecíveis. Percebia seus velhos traços, mas não encontrava sua juventude. Ele havia envelhecido, rapidamente. Nunca havia raciocinado isso, nunca se dera conta que o tempo passara, que os seus 20 anos se foram. Forçosamente encarou o espelho mais uma vez, e a memória do rosto que vira no taxi, refletido no espelho retrovisor, tornou-se vívida. Aquele era o seu próprio rosto e ele não o reconhecera, tivera dó de si mesmo, sem saber. Andou para trás, tropeçou e saiu do banheiro.
Sufocou um grito, seu corpo parou no tempo subitamente. Ele lembrou de todos seus planos, dos seus sonhos e das promessas individuais de realizá-los, à qualquer custo. Lembrou-se do futuro promissor que ele esculpira quando jovem, pensou em todos os amores que queria ter vivido e dos quais acabara fugindo. Esnobara todos, atrasara o relógio disfarçadamente, era sempre cedo demais. Pensou também em todas as viagens que faria, no mundo misterioso que ele desbravaria e nas montanhas que ele planejava subir, assistir à vista, pegar uma pedra redonda e descer, contente.
Mas ali, diante do espelho, percebeu que sempre tropeçara nos sopés das montanhas, sempre achara elas grandes demais, e assim escolhera uma menor, menor, menor, menor, até que escolhera deitar-se num buraco. Lá era mais escuro, vazio e confortável, fácil de entrar. O difícil era sair. Ele queria apenas subir num pódio e nunca apercebeu-se disso, ele nunca amou as montanhas de verdade, nunca imaginou-se dormindo em uma montanha, nunca imaginou-se fazendo amor em uma montanha. Ele apenas queria subir lá em cima, mas se tratava de subir em pensamento, um subir metafísico. Ele nem mesmo queria estar lá, era frio. Estava claro, ele era a própria montanha, cravada no chão, querendo se escalar. Ele sonhava estar no topo de si mesmo, mas isso era impossível, oras, era uma corrida infinita sem esforço algum. Apenas uma projeção oca.
Aturdido, seu coração palpitava e seus olhos estavam apertados com força. Os pensamentos estavam a mil, começara a tirar conclusões infinitas, parecia que finalmente sua vida elucidara-se. Sua consciência dizia ‘basta’. Olhou uma moldura envidraçada de uma foto de quando era jovem e enfiou a testa nela, estilhaçando o vidro e enfiando pequenos cacos em sua testa suada. O sangue escorreu lentamente. Depois de limpar o rosto, ele socou a parede, carimbando-a com a marca da sua mão, rubra. Sentou-se e começou a chorar nervosamente. Onde estava o problema? O que ele desejara de errado? Porque fora tão cego e tão covarde? Sua cabeça começou a doer, progressivamente. Então, conseguiu respirar fundo e pensar: “para com essa merda seu imbecil, não vê que isto está te fodendo? Acorda, você tá chapado”
Abriu os olhos, e viu a bagunça que havia feito, olhou para baixo envergonhado. O que acontecera naqueles instantes, que bombas que ele acabara de armar em seu cérebro, porque esse imaginário estava agrilhoado em seu inconsciente, de onde aquilo brotara? Era impossível compreender como não percebera o tempo passando, como adormecera durante tantos anos. Acordara só agora. Lembrou-se de um filme que assistira uma vez, ‘O homem que não estava lá’, dos irmãos Cohen.
Realmente ele nunca esteve em lugar nenhum. Mas dessa vez estava ali, sentia o significado do verbo ‘estar’. Ele estava presente, com a carne e com a alma, viu o mundo tal como lhe parecia agora, encarou sua verdade, sua essência, sua busca inútil, sua podre ilusão. Sentia seu corpo, sua respiração humana, seu sangue percorrendo cada centímetro das suas veias. O seu pensamento rodopiava pelo espaço à sua volta, numa presença avassaladora, ele movia-se com toda a energia, com toda a sua persuasiva clareza. Desta vez ele se mostrava de uma forma quase que palpável pelos sentidos.
Então as engrenagens da sua mente começaram a perdera a força. Seu pensamento foi se cansando, ficando rarefeito, até que esbranquiçou por competo. Sim, sua mente era uma folha em branco, não conseguia pensar em mais nada, apenas respirava, sentado. Ficou ali, com a mente vazia durante a madrugada inteira. Seu estado era quase vegetativo, completamente em paz, absorto em um nada. Levantou-se às 8 horas da manhã e foi deitar-se, serenamente.
Dois meses depois noticiaram no jornal, que um brasileiro de Belo-Horizonte vendera seu apartamento e, com o dinheiro, viajara para a Ásia, para a região montanhosa do Himalaia. Não deram muitos detalhes, nem mesmo o nome dele. Não se sabe por que, nem como ele o fez, mas ele se juntara a uma equipe de escalada, no Nepal, que enfrentaria o monte Everest. Ele morrera na descida, despencara de uma altura superior a 500 metros. Não se sabe se ele escorregou ou se ele se jogou. Foi impossível resgatar o corpo.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Devaneio sobre os aventureiros: conquistadores e viajantes.
Isso não impede que ele saia correndo de sua casa, caso ela esteja ardendo em chamas, mas impede que ele desvie o olhar do computador, para olhar o céu azul através da janela. Ao andar na rua, ele não percebe o desenho das folhas descansadas no chão, ele repara apenas no mendigo empoeirado do qual deve-se desviar apressadamente.Observar a beleza daquelas folhas é poético, ver as diferentes tonalidades que variam de acordo com a sua maturidade. Verdes, amarelas e marrons, embaralhadas de forma que, mesmo aleatoriamente, formam um mosaico que nunca será repetido por ninguém. Essa é a aventura de um viajante, que parabeniza silenciosamente a obra de arte da mãe natureza em meio à cidade cinzenta. Já, desviar de um homem estirado na calçada, é uma conquista. O conquistador sobrepuja assim, mais uma armadilha que a selva de pedra preparara, sorrateiramente, para ele, naquela tarde de outono.